Wednesday, November 07, 2007

PARA PENSAR...



Mães-coragem


O que sentirá uma mãe que tem que deixar sozinhos os seus filhos pequenos quando sai de madrugada para o trabalho?

O trágico acidente da semana passada, junto ao Terreiro do Paço, em Lisboa, em que morreram atropeladas duas mulheres e uma terceira ficou gravemente ferida, desocultou realidades que só longinquamente vamos percepcionando.

Filipa Lopes Semedo, de 57 anos, uma das vítimas mortais, imigrante são-tomense, mãe de dez filhos, havia saído da sua casa, do outro lado do rio, às 04h30, para apanhar o primeiro barco que todas as manhãs atravessa o Tejo, trazendo os primeiros trabalhadores para a cidade. Com ela viajavam outras mulheres africanas, de S. Tomé e Cabo Verde, que vêm cuidar das limpezas dos muitos escritórios de Lisboa.

Todas as vítimas atingidas por esta tragédia tinham esse elo de união: vinham trabalhar, ainda não tinha o dia despertado, para as limpezas dos nossos escritórios.

Com efeito, nós que começamos o dia mais tarde – e que às quatro e meia da manhã ainda estamos no nosso descanso – não temos consciência da dureza de algumas vidas, em busca de pão para a família. Entre os muitos – portugueses e imigrantes – que são heróicos protagonistas destas vidas difíceis, devemos hoje particularmente uma homenagem à coragem destas mães africanas.

Agarrando com as duas mãos qualquer emprego que lhes surja, ainda que não difira muito do circuito das limpezas ou da venda de peixe, estas mulheres, muitas delas também mães, enfrentam com uma coragem extraordinária o seu quotidiano. Rodeadas de obstáculos hostis, procuram – normalmente sozinhas – educar os seus filhos o melhor que podem, ainda que quase tudo se volte contra elas.

Basta imaginar o que sentirá uma mãe ao ter de deixar, todos os dias, os seus filhos pequenos entregues a si próprios ou a irmãos um pouco mais velhos porque à hora a que sai de sua casa não há creches abertas onde os possam deixar. E, quantas vezes, só regressam a casa depois do turno da tarde de limpezas, o que equivale a ver os filhos só à hora de jantar. São crianças que crescem sozinhas, na rua, como preço dos nossos escritórios limpos antes das oito da manhã e depois das seis da tarde.

Mas Filipa não morreu sozinha naquela manhã. Ao seu lado ficou Neuza, na juventude dos seus 18 anos, que atravessava a passadeira com a sua mãe naquele momento fatídico.

A história da mãe de Neuza é a de muitas mães-coragem que emigrando deixam os filhos no país de origem, à guarda da avó ou de algum familiar, sempre no sonho de um dia os poderem recuperar para junto de si. Juntam dinheiro, a partir de um magro salário, para conseguirem esse momento mágico de voltarem a juntar a família. Tinha sido essa a experiência da mãe de Neuza. Demorara quatro anos a juntar dinheiro para a passagem de avião da sua filha. Tinha conseguido trazê-la há seis meses para junto de si. Percebe-se, por isso, que após o atropelamento e apesar do seu estado muito grave, só gritasse o nome da sua filha. Nunca irá compreender porque morreu a sua filha Neuza naquela manhã. Ainda haverá coragem que resista a mais esta provação?


In "Ao sabor do vento"
Rui Marques

10 Comments:

Blogger Um Momento said...

Aramis...
Estou de lágrimas a correr sob a minha face...
Não porque já não soubesse a noticia...mas pela realidade dura de tudo isto
É realmente penoso para tantas Mães , que lutam pelo bem estar de seus filhos...tentam por tudo fazer tudo por eles...e vem um desgraçado qualquer e num ápice torna os sonhos em verdadeiros pesadelos...
O teu texto ...está bastante real, bastante expressivo e sim...dá que pensar, que se houvesse mais cuidado, mais apoio a quem dele necessita, mais civismo... tanta desgraça não aconteceria, e tantas Mães, mulheres , adolescentes, crianças, e seus respectivos familiares,...não sofreriam tanto com tal...
Abraço deveras sentido... em ti
(*)

11:59 AM  
Blogger paper-life said...

Minha querida apesar da gtragédia gosto de te ver atenta à dura realidade em que viemos.
Um beijo carinhoso. Hoje não estou muito boa a comentar sentires difíceis.

12:17 PM  
Blogger elvira carvalho said...

É a vida de tantos emigrantes, mas é a vida de tantos portugueses, também. Nos anos 70 trabalhei na Escola do Lourel em Sintra. Vivia no Barreiro. Ia sempre no primeiro barco. Depois no final dos anos 80, trabalhei numa fábrica de ceramica em Alcabideche, mesmo ao lado dos Bombeiros e também apanhava o primeiro barco.
Quase não via o meu filho pois saía ás 5 da manhã e chegava ás 9 da noite.
Muito triste a estória destas mulheres.
Um abraço

12:25 PM  
Blogger Jose Gonçalves said...

Aramis

Sempre vivi em Lisboa e embora não tendo necessidade de me levantar tão cedo, tinha um outro drama todos os dias que regressava a casa.
Nas paragens dos autocarros, ali perto do Areeiro, de onde partiam carreiras para os arredores de Lisboa, dezenas e dezenas de mulheres, homens e crianças esperavam a sua vez de chegar ao lar, sabe Deus como e a que lar.
Seguramente que a hora de chegada era sempre a más horas, e aquela multidão diária, no dia seguinte levantava-se de novo de madrugada para mais um dia de trabalho.
É a realidade de um povo que trabalha duramente, em muitos casos a troco de um ordenado de miséria.
Quantas vezes dei comigo ali sentado a olhar aquela gente...
Lembro-me de quando era miúdo e perguntava a meu pai, que num café perto tinha por hábito tomar a sua "bica", a que horas chega esta gente a casa? E de comer, terão?
E amanhã virão de novo para o trabalho?
Via o meu pai com muita dificuldade em responder-me. Desde logo porque a vida nos proporcionou outra forma menos penosa de sobreviver.
São as leis da vida, minha amiga, e quem não tem posses, e tem muitos filhos, como era o caso desta mãe coragem.
Tenho uma certa curiosidade de saber que futuro irão ter aqueles orfãos, e quem lhes deitará a mão?
Será que a responsabilidade depois de apurada, dará àquelas crianças uma vida condigna?
É que o drama e a desgraça não se findou neste brutal acidente, adivinho que se irá propagar por muito tempo e por muita gente.
Um abraço
José Gonçalves

7:32 PM  
Blogger Sophiamar said...

Dá que pensar! E temos de tomar medidas drásticas para que situações destas não se repitam com a frequência do costume. Tantos lares desfeitos, tanta dor à partida quando se deixa os filhos, tão grande ferida lhes deixamos quando não mais os voltamos a ver, a dar o pão, o agasalho e o mimo que só as mães sabem dar.
Beijinhossss

8:55 AM  
Blogger Ernesto Feliciano said...

Amiga Aramis,

Desejos de um bom fim-de-semana e de um óptimo São Martinho.

Um abraço.

3:13 AM  
Blogger Maria Faia said...

Querida Amiga,

O seu bocadinho de sol chegou cá e, foi bem oportuno.
Deixo-lhe um beijo amigo, de uma mãe vaidos e "galinha" q.b.
Desejo-lhe um excelente fim de semana, com muita Paz e alegria.

Maria Faia

8:22 AM  
Blogger J. P.G. said...

É sem a menor das dúvidas uma vida penosa, embora não exclusiva das mães africanas.

Sejam elas quem forem, o que importa é realçar o papel importantíssimo da mulher, hoje em dia, no angariar do sustento para a família, bem como o seu poder de sacrifício, pois todas essas têm depois de um duro dia de trabalho, outr que as espera em casa. E como sofre a educação dos garotos!...

Um abraço.

11:48 AM  
Blogger Sophiamar said...

Reli o teu post. Dá que pensar esta sociedade onde vivemos. Tão desigualitária, tão injusta.
Deixo-te beijinhos por todo o teu carinho e solidariedade.

3:34 PM  
Blogger Entre linhas... said...

Vidas retratadas aqui através de mortes drásticas,a sociedade em que vivemos é demasiado atroz,quantas mães nessa situação existirão por est Portugal fora,mães coragem,mães sofridas...
Bjs Zita

1:32 AM  

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